Verdades Laterais

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por Janaína Melo

 

Talvez nós necessitemos tentar nos redefinir em uma paisagem onde seja possível encontrar mais verdades laterais. O que para outros são desvios, são para mim dados que definem meu caminho.

Walter Benjamim

 

No trabalho de Daniel Escobar o ponto de partida é a apropriação da imagem publicitária. Embora sua investigação se oriente pela discussão da efemeridade do circuito publicitário de exibição, consumo e desejo, a questão que de fato parece colocar-se no centro de suas reflexões diz respeito às relações, trocas e rearranjos que propõem a esse circuito de imagens. Num processo investigativo de intervenções, sobreposições, perfurações, recortes e acúmulos cria um campo que força nossa percepção a reconhecer esse material em novas imagens, onde a matéria original altera sua existência, forma e qualidade.

Interessa ao artista desvendar as estruturas e circuitos particulares das imagens para propor, a partir delas, a elaboração de novas possibilidades conceituais no campo das artes. Por isso, o interesse pelo outdoor, umelemento presente em praticamente todos os centros urbanos, mas sobre o qual muito pouco se sabe. Desconhecemos o sistema e ciclo de vida dessas imagens ou quais são as orientações para a identificação dos lugares de veiculação. O que determina um lugar como o de melhor visibilidade? Existe uma memória dessas imagens? Elas geram algum resíduo? A partir desse vasto campo de interrogações o artista força as imagens testando seus limites de permanência e visibilidade. Perfura retirando a matéria, sobrepõem criando camadas que se contaminam, recorta alterando a própria natureza do objeto.

Em Ainda Paisagem (2008) o artista força a percepção não apenas do objeto, mas da construção mesma da imagem, seu sentidos e usos. A dimensão crítica dessa ação encontra-se no manuseio de uma imagem que resiste a intervenção e tem espessura mesmo na transparência. A imagem exige ser compreendia em sua densidade, uma vez que, sua forma original permanece presente mesmo na trama das camadas sobrepostas. Nesse mesmo sentido a série Horizontes Possíveis (2009) revela através da sobreposição de camadas um tecido cuja imagem final oferece-se como uma paisagem, em que a linha equilibra os planos num tenso e frágil ajuntamento. A idéia de pintura não sai da cabeça, mas aqui ela é apreendida por intermédio de uma manifestação cotidiana específica dos meios de comunicação de massa.

Já em Cidades Azuis (2009) a imagem de céus extraída de seu corpus inicial é tencionada para a criação de nuvens, elemento cambiante, limite extremo da impermanência. Nessas nuvens a cidade ainda assim se revela; transformada, é certo, nos limites de uma dada presença/ausência. Sai do chão, muda de lugar e orienta a criação de linhas e contornos de uma em várias cidades. O trabalho inaugura uma cartografia imaginária que, obrigada a conviver num único céu, transforma o espaço ficcional em realidade de lugar.

O lugar só existe enquanto relação, sendo representado é virtual, imaginário. Nesse sentido que As cidades e o desejo (2009) um conjunto de duzentos e cinqüenta guias turísticos da cidade de Belo Horizonte, nos oferece uma trama delicada de significados. Abrindo um guia numa página qualquer Escobar acrescenta a ela, através de recortes e colagens, uma nova edição de imagens. Criando encontros extraordinários faz surgir, na página aberta do guia, novos cenários para monumentos, praças e jardins. O artista constrói nesse sentido, um outro espaço, ainda a mesma cidade, mas revelada nesse conjunto como lugar cênico, que altera a percepção espacial marcando uma ruptura com o ambiente “real”. Manifesta assim a intenção mesma de construir um certo tipo de cidade que coloca em cena o sujeito em relação ao mundo e ao seu imaginário.