Cannot open file (/home/danieles/public_html/v1/wp-content/backup/.htaccess)Cannot write to file (/home/danieles/public_html/v1/wp-content/backup/.htaccess) O mapa como matéria prima | Daniel Escobar

O mapa como matéria prima

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por Gabriel Menotti

 

1.

As fractais imagens de satélite, alinhadas por GPS com a própria circunferência da Terra, parecem ter tornado supérfluo tudo o que até então constituía a arte e ciência dos mapas. Pode ser que o Google logo provoque na cartografia um efeito semelhante ao que a popularização da foto, ao final do século XIX, causou na pintura. Isenta da tarefa de representar territórios e percursos, a cartografia poderia atingir sua fase impressionista, tornando-se sobretudo um exercício formal. Depois, passaria a um segundo estágio, em que o mapa voltaria a ser um instrumento, mas agora dedicado à critica da lógica figurativa a que por tanto tempo se prestou. Uma coisa levaria a outra e, logo adiante, certamente teríamos os defensores do mapa-pelo-mapa, nos arrastando de volta ao ponto de partida.

Talvez essa metamorfose seja questão de tempo. Talvez já tenha acontecido mas, dada a sua natureza cíclica, seja impossível perceber. Ou talvez nunca aconteça porque, pós-modernos que somos, entendemos de antemão que nenhuma tecnologia é idônea – quanto mais de representação, quanto mais automatizada. Não esperamos do GPS, com os seus erros pré-programados, uma revelação semelhante à dos primeiros daguerreótipos. Esse instrumento parte de pressupostos: já sabemos que a América está lá; só precisamos confirmar a melhor forma de atravessá-la na hora do rush.

Enquanto isso, o Google Maps serve de pretexto tanto para o marketing 1 quanto para erros militares. 2 Não seria errado dizer que a cartografia também segue sua vocação secular, como um campo de especulações econômicas e políticas. Em larga medida, o mapa nunca representou território algum. O mapa produziu o território, colocando o norte por cima, a Europa no centro e a Inglaterra proporcionalmente maior do que ela realmente é. Logo, a verdadeira diferença entre novas e velhas tecnologias de mapeamento – a cartografia antes e depois do GPS – não está tanto na precisão técnica nem nos preceitos semióticos, mas no seu ritmo de uso e informação.

A cartografia vive uma Era da Abundância e Desperdício. Houve uma época em que fazer um mapa era um ofício laborioso, que custava anos de pesquisa, cálculo e artesanato – e, mesmo assim, não produzia mais do que uma aproximação do percurso, destinada a sucessivas revisões. Já hoje, basta sair com um celular no bolso e, graças às discretas triangulações de sinal, o mapeamento se faz rigoroso e inevitável. Mas se os continentes já foram todos descobertos e não há lugares novos a conhecer, que fim podemos dar a esse superávit de representação?

 

2.

Há trabalhos de Daniel Escobar que reduzem o mapa – e a foto de divulgação turística – a uma mera substância. O artista parece ir à ephemera publicitária como quem vai a um fosso de argila, e de lá retira esse material. Enquanto o clichê se dilui (como barro), seus sinais característicos se acumulam (como ruído), mas sem jamais atingir um estado plenamente maleável, de papier-mâché.

O que sobressai de obras como Plano Diretor e Cidades Azuis, por exemplo,não são seus contornos particulares ­– que, colaterais ao processo constitutivo, arrisco dizer que poderiam ser outros. Mais do que formas próprias, o que reconhecemos nessas obras são vestígios de formas alheias, que inusitadamente resistem à homogeneização, do mesmo modo que o design industrial resiste nas Acumulações de Arman.

No par que As Cidades e o Desejo faz com Palácio das Esferas, fica ainda mais claro como a obra se torna um fundo contra o qual o clichê cartográfico, cirurgicamente mutilado, reassume o papel de figura. As fachadas de papel, enraizadas nas páginas de guias turísticos, revelam-nos como pedestais: são condições de existência de uma Belo Horizonte impossivelmente única.

Perto Demais resulta de um procedimento de superimposição semelhante aos de Idris Khan, e nos leva a perguntar se o esforço de homogeneizar ícones não termina por depurá-los de sua iconicidade. Portanto: destilada a vaga impressão do lugar, o que resta no mapa além de uma certa ordem que se impõe aos elementos da legenda?

 

3.

Um mapa também pode ser encarado como um diagramaou um esquema retórico. Logo, outra forma de se apropriar da representação do lugar é como um método de organização. Por essa via, Marina Camargo produz seus Horizontes Simulados e cria bases para o colaborativo Open Horizons Project. Nesse sentido, seu trabalho é o perfeito contrário do de Daniel: enquanto ele produz uma Belo Horizonte transcendental a partir de clichês cartográficos, ela extrai de sua sintaxe o próprio Horizonte platônico.

As obras de Marina também sugerem que a cartografia, senão natural, é pelo menos um sintoma de estar-no-mundo. O alinhamento entre o céu e a terra não é dado por nenhuma ciência, mas pelo mero olhar. A projeção calculada do território (no plano) decorre da inevitável projeção do olhar (no território), ressaltando pontos de referência e marcos de orientação.

Antes que pudesse desenhar os oceanos, o homem precisou estabelecer coordenadas celestes. Como em Some Air in Between, as constelações são metáforas projetadas a partir dos contornos da civilização. É por isso que as que nos acompanham desde a Idade Antiga têm nomes de deuses e bichos, enquanto as que apareceram no século XVIII foram batizadas em homenagem ao microscópio e ao relógio. 3

O jogo de camadas de Universo Paralelo ilustra o mesmo paradoxo: ­que o céu seja na verdade iluminado por baixo, pela imaginação ou pela técnica das cidades que encoberta. Mas esse outro trabalho também sugere o seguinte resultado: que, se tornando referência, a metáfora obstrua os contornos do lugar – criada pelo olhar e para o percurso, a cartografia se torne um entrave para ambos. Como em The End, a orientação da imagem substitui sutilmente a do mundo e não parece haver trapaça, porque não esperamos do mapa nenhuma lógica, somente um prumo.

 

4.

O que a evocação do espaço sobre a terra deveria nos lembrar é que, finalmente, o mapa é uma perspectiva, mas que nunca é somente nossa, por mais que coincida com a nossa exata posição. Assim, todo mapa representa pelo menos dois lugares: o primeiro como imagem, a que ele se refere; e o segundo como negativo, de que ele resulta. Esse outro lugar pode ser do alto de um platô, onde todo o território se dá a ver sem embaraços, ou de dentro de um computador, que calcula com precisão a distância daqui até a fronteira.

Da mesma forma que esses outros lugares estão contidos no mapa, também estão os processos de mapeamento e suas ferramentas, como vestígios. É através deles que se desdobra o trabalho de Daniel e Marina, em suas parcerias com Andrei Thomaz, como se entrassem em loop. Em Changing Landscapes, a imagem-informação, que normalmente serve como atestado de uma presença específica, é ela própria apresentada como um clichê, num amálgama semelhante ao de Perto Demais. Eclipses, por sua vez,parece desenvolver o tema de Universo Paralelo – mas aqui, estabelecido o ponto de referência, é uma cidade que recorta outra e mais outra, até produzir o céu de nenhuma delas.

Nos trabalhos em que Andrei atua sozinho, o mapa atinge um nível ainda mais arbitrário de manipulação. Enquanto Marina se apropria das sintaxes cartográficas como um gabarito, Andrei as expõe como um sistema de jogo. Em GPS São Paulo, os parâmetros de orientação que pareciam inevitáveis contingências novamente se revelam circunstanciais, visto que mesmo origem e destino são decididos ao acaso, e o jogador-viajante pode interromper sua partida-percurso quando bem entender.

Esse abuso é levado às últimas consequências no par Horizontal Vibrations e Movement in Squares, em que os padrões de clássicos da op art são aplicados a vídeos comprados em bancos de imagem. O diagrama mais icônico esquadrinha o clichê mais genérico; aí, parece que finalmente sucumbem tanto a regra quanto a figura, trazendo à tona a forma particular das próprias obras.

Paradoxalmente, são formas que parecem escavadas de algures, de algum sítio arqueológico da web vernacular; 4 são formas que parecem guardar o aviso de que nessa Era também a historiografia é excessiva, mas ainda não conseguiu nos levar além do tempo ­– e os mapas, por vários que sejam, jamais esgotarão o espaço.

 

 

 

 

The Map as Raw Material

 

1.

Fractal satellite images, aligned to the circumference of the earth by GPS, seem to make everything that has hitherto formed the art and science of maps superfluous. Perhaps Google will soon have the same effect on cartography as the photo had on painting in the late 19th century. Freed from the task of representing routes and territories, cartography could move into its impressionist phase, becoming above all a formal exercise. Then it would move into a second stage, in which the map would go back to being an instrument, but now concerned with criticism of the figurative reasoning for which it was employed for so long. One thing would lead to another and, sooner or later, we would soon have defenders of the map for its own sake, taking us back to where we started.

Perhaps that metamorphosis is just a matter of time. Maybe it has already happened, but given its cyclical nature, it is impossible to notice. Or perhaps it will never happen, because postmodern as we are, we already understand that no technology is perfect – no matter how representational or automated it may be. We do not expect the GPS, with its built-in errors, to offer a revelation similar to that of the first daguerreotypes. The instrument starts from suppositions: we already know that America is there; we just need to check the best way of crossing it during rush hour.

In these terms, Google Maps serves both as a pretext for marketing and for military errors . It would not be wrong to say that cartography maintains its secular vocation, as a field of economic and political speculation. To a great extent, the map never represented any territory. The map produced territory, placing north at the top, Europe in the middle and England proportionally bigger than it really is. Therefore, the true difference between new and old mapping technologies – cartography before and after the GPS – lies neither in technical accuracy nor in semiotic precepts, but in its rhythm of use and information.

Cartography is living through an Era of Abundance and Waste. There was a time when map making was a laborious craft, involving years of research, calculation and skill – and even so, it produced no more than an approximation of route, subject to successive revisions. Nowadays, though, it is enough to go out with a cell phone in one’s pocket and, thanks to discrete triangulations of signal, mapping is firm and inevitable. But if the continents have already been discovered and there are no new places to explore, what purpose must we give to this surplus of representation?

 

2.

There are works by Daniel Escobar that reduce the map – and the tourism-marketing photo – to mere matter. The artist seems to go to advertising ephemera like someone going to a clay pit and extracting material from it. While the cliché is diluted (like mud) its characteristic signs accumulate (like noise), but never reach a fully malleable state of papier-mâché.

The thing that stands out from works like Plano Diretor and Cidades Azuis, for example, is not their particular outlines – which, as a result of the constructive process, I would suggest could be different. Rather than their own forms, what we recognise in these works are vestiges of other forms, which unusually resist homogenisation, in the same way that industrial design persists in Arman’s Accumulations.

As Cidades e o Desejo and Palácio das Esferas, make it even clearer how the work becomes a background for the cartographic cliché, surgically mutilated, to take the role of figure. The facades of paper, with their roots in the pages of tourist guides, reveal them as pedestals: they are the conditions of existence of an impossibly unique Belo Horizonte.

Perto Demais results from a procedure of superimposition, similar to those of Idris Khan, leading us to ask whether the effort of homogenising those icons does not end up denuding them of their very nature as icons. Therefore: when distilled to a vague impression of place, what remains of the map other than a certain order imposed on the elements of the legend?

 

3.

A map can also be seen as a diagram or a rhetorical schema, and thus another way of making use of the representation of space is as a method of organisation. Marina Camargo produces her Horizontes Simulados along such lines, creating the underpinnings for the collaborative Open Horizons Project. Her work is therefore the perfect opposite of Daniel Escobar’s: while he produces a transcendental Belo Horizonte from cartographic clichés, she extracts the platonic Horizonte itself from its syntax.

Marina Camargo’s works also suggest that cartography, if not natural, is at least a symptom of being in the world. The alignment of heaven and earth does not come from any science, but merely from looking. The calculated projection of the territory (on the plane) results from the inevitable projection of the gaze (over the territory), highlighting reference points and orientation marks.

Before being able to chart the oceans, mankind needed to establish celestial coordinates. As in Some Air in Between, the constellations are metaphors projected from the outlines of civilisation. Which is why the ones that have been with us since the Middle Ages have the names of gods and animals, while those that appeared in the 18th century where christened in homage to the clock and the microscope .

The interplay of layers in Universo Paralelo illustrates the same paradox: that the sky is in reality illuminated from below, by the imagination, or by the devices of the cities it covers. But this other work also suggests that, taken as reference, the metaphor obstructs the outlines of place – created by the gaze and for the movement, cartography becomes an obstacle for both. As in The End, the orientation of the world is subtly replaced by that of the image, which is not a deceit because we were not expecting any logic from the map anyway, just guidance.

 

4.

The evocation of the sky over the earth should remind us that the map is, after all, a perspective, but that is never just ours, no matter how much it coincides with our exact position. Every map therefore represents at least two places: the first as an image, which it refers to; and the second as a negative, what it results from. That other place can be from the top of a plateau, where the whole territory can be seen without interruption, or inside a computer, which can accurately calculate the distance from here to the border.

Just as those other places are contained in the map, so are the processes of mapping and their tools, as traces. In their partnerships with Andrei Thomaz, the work of Daniel and Marina unfolds through those processes, as if going into a loop. In Changing Landscapes the image-information, which normally serves as evidence of a specific presence, is itself presented as a cliché, in an amalgamation similar to the one in Perto Demais. Eclipses seems in turn to develop the theme of Universo Paralelo – but here, once the reference point is established, it is one city that cuts across another and then another until the sky of none of them is produced.

In the works in which Andrei operates alone, the map reaches an even more arbitrary level of manipulation. While Marina appropriates cartographic syntax as templates, Andrei reveals them as a game system. In GPS São Paulo, the parameters of orientation that seem to be inevitable contingencies are once again shown to be circumstantial, since even origin and destination are decided at random, and the player-traveller can interrupt the sessions-route at will.

This excess is taken to its ultimate conclusion in the pair of works entitled Horizontal Vibrations and Movement in Squares in which classic patterns of op art are applied to videos purchased from image banks. The most iconic diagram frames the most generic cliché; it seems that now both the rule and the figure have finally succumbed, revealing the particular form of the works themselves.

Here are forms that paradoxically seem to have been excavated from somewhere else, from some archaeological site of the vernacular web; they are forms that seem to contain the warning that historiography is also excessive in this Era, but has still not managed to take us beyond time – and maps, however varied they may be, will never cover every space.

 


http://googlesightseeing.com/2007/11/worlds-largest-kfc-logo/

http://www.wired.com/dangerroom/2010/11/google-maps-error-blamed-for-nicaraguan-invasion/

http://www.astro.wisc.edu/~dolan/constellations/extra/Lacaille.html

http://art.teleportacia.org/observation/vernacular/