Cannot open file (/home/danieles/public_html/v1/wp-content/backup/.htaccess)Cannot write to file (/home/danieles/public_html/v1/wp-content/backup/.htaccess) De passagem | Daniel Escobar

De passagem

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por Fernanda Lopes

 

- Eu existo sozinho – diz o poeta ao mundo.
– Não – diz o mundo – tu existes comigo.

(Vilém Flusser)

Segundo o dicionário, “paisagem” é a extensão de território que o olhar alcança em um só lance. Ou seja, aquilo que é delimitado pelo olhar. Se no século 17 a pintura de paisagem se afirma como gênero artístico, só dois séculos depois irá ganhar destaque, com a execução en plein air. A invenção da bisnaga descartável de tinta deu aos artistas naquele momento a possibilidade de observar a paisagem mais de perto enquanto trabalhavam. Com o Impressionismo, marco nesse processo, a observação direta da natureza fornecia novos indícios para a criação artística, principalmente através da ênfase nas impressões pessoais e sensações visuais imediatas de cada artista.

A relação da arte contemporânea com a paisagem parece ser de outra ordem. A questão continua sendo “o que nossos olhos conseguem enxergar”, mas parece que agora eles conseguem nos levar mais longe. Como manter-se imune às novas tecnologias da imagem, às viagens espaciais ou mesmo aéreas e à capacidade de enxergar o micro e o macro cosmo? “Não há espaço na natureza. Somos nós que o medimos, o conhecemos, o comovemos pela velocidade de nossas percepções”, escreveu o poeta francês Paul Élouard. A paisagem contemporânea está na passagem, em movimento, no espaço entre. Pode ser aquela vista do retrovisor do carro, nas memórias de um caderno de anotações, nas impressões de um pôr do sol ou na observação do espaço urbano. Não importa mais o que vemos e sim como vemos ou para onde isso pode nos levar.

Em De Passagem, as paisagens reunidas são lugares possíveis, mas ainda não tentados, sem fronteiras, e desobrigados da realidade que vemos. Se antes a paisagem se prestava a nos mostrar o que víamos, agora ela nos revela aquilo que não vemos.

As fotografias realizadas na parceria entre Carolina Cordeiro e Cao Guimarães revelam paisagens possíveis, escondidas atrás das paisagens que vemos. O horizonte, ponto de encontro entre o céu e a terra, é traçado por uma linha de luz, que cruza o campo de visão de uma ponta à outra. Em fotos como essa, o cotidiano poético salta aos olhos. Com capacidade para 75 mil pessoas, o estádio do Mineirão provavelmente nunca foi visto assim.

Em seus trabalhos, Daniel Escobar se apropria da imagem publicitária e dos dispositivos de comunicação visual presentes na cena urbana. Cidades Azuis teve como ponto de partida imagens de céu retiradas do Guia Turístico de Belo Horizonte. Sobrepostas e coladas, reconstroem a linha do horizonte, criando uma nova percepção do céu e reafirmando a capacidade de reconfiguração constante da própria paisagem que se faz e se refaz o tempo todo.

Daniel Nogueira se apropria de elementos urbanos e da própria paisagem da cidade em seus trabalhoss trabalhos. A partir de lâmpadas fluorescentes, fios, estruturas de metal e plásticos seus objetos luminosos ganham forma, ficando na fronteira entre pintura, desenho, escultura, objeto e instalação. Homenageando os Objetos Ativos de Willys de Castro, HOW 001 intervém na arquitetura, alterando nossa relação com o objeto e a paisagem interior.

Nos trabalhos de Estela Sokol é recorrente a referência a horários e localizações geográficas, como Meio dia e meia, Estudo para uma manhã na neve, Solstício e Meio dia. Suas peças dialogam com as luminosidades desses momentos, fenômenos e paisagens. Na série Crepúsculo, a luminosidade alaranjada do sol perto do horizonte ao amanhecer ou ao anoitecer reflete no ambiente a partir do granito negro, dando continuidade à pesquisa da artista sobre cor, luz e relações com o espaço.

As pequenas paisagens de Lucas Arruda são como reencontros. Diante de nós estão lugares que temos quase certeza que conhecemos, mas que ficaram perdidos em algum momento da memória. As lembranças não são feitas de certezas, assim como não é a pintura do artista. Elas acontecem no tempo. Os espaços se estruturam a partir de elementos que aparecem e desaparecem, que se afirmam pela cor, construindo novos lugares.

As pinturas de Rafael Alonso trazem à vista paisagens do mundo contemporâneo. Construídas a partir de fitas adesivas, tirando partido de suas cores industrializadas e sua textura lisa e brilhante, são artificiais e ilusórias, como as que encontramos em descansos de tela de computadores. São trabalhos que aproximam a pintura do objeto sem deixar de lado seu caráter virtual. O verde é tão verde e o azul tão azul, que parecem mais reais do que o real de fato.

Em Jardim Invisível, Roberto Bellini revela a paisagem noturna de um bairro suburbano do Texas (EUA). Os suaves movimentos de câmera ressaltam a beleza das imagens escuras que vão se revelando a partir do encontro com a luz, ao mesmo tempo em que trazem questões políticas sobre os limites entre espaços públicos e privados e seus usos. A relação entre as imagens cria uma nova paisagem, artificial e vazia.