Consumir o consumo

texts

 

Quem entrar na Galeria Gestual a partir do sábado, 03 de setembro, para visitar a mostra Coleção Particular, de Daniel Escobar, pode ficar ligeiramente confuso. Isso porque o ambiente, num primeiro instante, está configurado não como uma galeria de arte, mas sim como um showroom de vendas de imóveis, ou uma sala decorada em um apartamento qualquer.

Para realizar a instalação inédita Conjugado (2016), Daniel Escobar convidou o arquiteto Zeca Amaral a projetar um ambiente para uma residência privada. Sem qualquer interferência do artista, Zeca pode escolher qual cômodo seria montado, seus móveis, seus acessórios, sua iluminação e, inclusive, as obras do artista que comporiam o ambiente. Assim, o público se depara com as obras de Escobar penduradas nas paredes, atrás de aparadores, em cima da mesa. Escapando do tipo de montagem característico de um ambiente do mundo da arte – o aclamado, mas também criticado cubo branco -, o artista altera as etapas usuais da intermediação da circulação de trabalhos artísticos, alocando-os diretamente na última instância da cadeia produtiva da arte, a casa do comprador.

Dessa forma, Daniel subverte temporal e espacialmente mecanismos típicos do funcionamento do sistema da arte, mecanismos que ditam os critérios de legitimação de um artista e as formas de organização de uma exposição e seus desdobramentos. Aqui tudo não apenas está, como aparece interligado: artista, instituição, galeria, feira, ambiente doméstico. E nos leva a questionar as atuais imbricações entre as motivações que mobilizam a produção de um artista e o respaldo dado pelo mercado. Se uma obra pode sim ir diretamente do ateliê para habitar uma residência particular, afinal, para que(m) a arte é produzida?

Coabitando essa conjugação entre espaços público e privado, a obra traz uma imediata dupla perspectiva de interpretações. Não é apenas o nexo arquitetônico dado pela verossimilhança com um ambiente íntimo, mas também as relações temporais que a instalação apresenta. Estão presentes ali obras como Todos os nossos desejos, Atlas da anatomia urbana, e outras das séries The World, A nova promessa e Perto demais. São trabalhos de Daniel produzidos em diferentes momentos de sua trajetória, que respondem a distintos contextos e intenções do artista.

É interessante aqui apontar que, exatamente pelas obras serem pré-existentes e não terem sido produzidas para essa exposição a partir de um conceito unificador, elas evidenciam a coerência interna da poética de Escobar. Debruçando-se sobre materiais ordinários e transitórios mas de impacto visual, como mapas, guias turísticos, folhas de outdoors e bilhetes de loteria, Daniel desmancha suas configurações originais produzindo obras delicadas que refletem longos e pacientes processos de feitura manual. Ao mesmo tempo em que ele se utiliza das funções publicitárias originais desses materiais, não como índices da realidade, mas como representações da paisagem dos desejos contemporâneos, ele as incorpora, reconfigura e as expande nos seus trabalhos de forma irônica.

A partir de uma reflexão semelhante, a série inédita Coleção Particular (2016), que intitula a mostra, reafirma a visão crítica do artista sobre os processos de fetichização do mundo da arte. Nessa série, Daniel se apropria de revistas de decoração e detecta as obras de arte presentes em suas páginas. Adicionando um paspatur de acrílico branco sobre elas, ele recorta a exata borda dessas obras, deixando-as em evidência e escondendo sob o paspatur as imagens que compõem os ambientes. Também grava no acrílico a descrição da obra ou ambiente tal qual retirada da revista.

Em uma operação reversa à de Conjugado, o artista elimina todas as interferências que possam contaminar a visualização das obras. Ao fazer isso, evidencia o que fingimos não ver nessas revistas: a arte tão sacralizada nos museus e galerias exposta em sua cotidiana banalidade. Vemos uma Regina Silveira enviesada sobre a lareira, um Francisco Brennand sobre a mesa, um Rodolpho Parigi parcialmente visível atrás de objetos de decoração e alguns Volpis pendurados na parede. Ironicamente, conseguimos enxergar através do paspatur sombras que correspondem ao ambiente decorado da revista. Manchas inacessíveis vendendo a promessa da felicidade através de um futuro que nunca chega, ilusões da ideia de uma casa completa para uma vida perfeita. A arte apresentada dentro dos mecanismos da publicidade e sendo usada para os mesmos fins dessa indústria: vender estilos de vida.

Dentro desse contexto, Daniel Escobar aponta o artista como mais uma peça da máquina e nos pergunta a todos: de que lugar, afinal, se fala? Porque negar o papel do mercado de arte? Não seria mais interessante incorporá-lo a essa equação? Apropriar-se de seus mecanismos para, sem hipocrisia, discuti-los? Ou, como tão bem apontou Hélio Oiticica, no texto Brasil Diarreia,

“Por acaso fugir ao consumo é ter uma posição objetiva? Claro que não. É alienar-se, ou melhor, procurar uma solução ideal, extra – mais certo é sem dúvida, consumir o consumo como parte dessa linguagem”.

E assim, consumindo diferentes facetas do consumo, Daniel nos mostra que os processos que negam ou encobrem as relações comerciais permeiam todo o circuito artístico. De uma forma humorada mas contundente ele informa que o mundo da arte é como um paspatur de acrílico branco: ligeiramente turvo, mas que se deixa transparecer ao olhar de um observador atento.

 

Bruna Fetter